DESAFIO EM FAMÍLIA: ANTES DE ESCOLHER, OLHAR MAIS ALÉM!

[Nota importante antes de iniciar o desafio]
Este é um exercício exigente, não porque seja difícil de compreender, mas porque implica algo cada vez mais raro no quotidiano familiar: tempo, atenção e verdadeira disponibilidade para conversar. É muito provável que, numa primeira realização, não consiga percorrer todas as etapas deste desafio com a devida clareza, nem atingir todos os objetivos propostos. Isso é absolutamente normal.
O essencial não está em “fazer tudo bem”, mas em começar! Começar a parar, a escutar, a perguntar com mais cuidado e a ajudar a criança a clarificar o que vivenciou no seu dia a dia. É nessa intencionalidade repetida, nessa regularidade tranquila, que mais tarde surge o espaço para a profundidade. Primeiro surge a disponibilidade, depois, com o tempo, irrompe a intensidade.
O verdadeiro valor deste desafio está na conversa que se produz, passo a passo. Muitas vezes, só o facto de um adulto se sentar com a criança para tentar compreender o que é que sentiu, o que aconteceu e o que pensou sobre isso, já produz efeitos profundos. E, quase sem se dar por isso, surge um momento em que é a própria criança que começa a colocar estas perguntas antes de agir. É nesse momento que o pensamento prospetivo se começa a consolidar – quando a criança deixa de necessitar sempre da pergunta prévia do adulto e começa, ela própria, a pensar no que pode acontecer depois de uma determinada ação realizada.
DESAFIO EM FAMÍLIA: ANTES DE ESCOLHER, OLHAR MAIS ALÉM!
Treinar o pensamento prospetivo / pensamento futurista no quotidiano familiar
Idades indicadas: a partir dos 8 anos
Duração aproximada: 60 minutos
OBJETIVO
Desenvolver, na criança ou no jovem e com o apoio da família, a capacidade de antecipar consequências, comparar possibilidades e compreender que uma escolha não termina no momento em que é feita, prolongando-se no tempo e afetando não apenas quem a toma, mas também aqueles que são atingidos pelos seus efeitos.
MATERIAIS E METODOLOGIAS
. Um caderno (idealmente reservado aos “desafios em família”)
. Lápis ou canetas
. Duas folhas A4
. Um espaço tranquilo, sem interrupções
Nota importante: neste desafio, a reserva de tempo de qualidade é parte integrante da metodologia.
PASSO A PASSO
1) Escolher uma situação real e recente
Em família, escolham um episódio ocorrido nos últimos dias em que a criança ou o jovem tenha hesitado, adiado uma decisão importante ou agido por impulso.
Exemplos: “Não me apeteceu estudar.” / “Respondi logo e arrependi-me.” / “Quis desistir.” / “Fui atrás do grupo.”
2) Escrever a escolha inicial
A criança ou o jovem escreve, numa frase curta, aquilo que quis fazer ou aquilo que fez naquele momento.
Exemplos:
“Quis adiar o estudo.”
“Respondi de forma incorreta.”
“Quis desistir da atividade.”
“Aceitei, sem pensar no assunto.”
Nesta fase, não se avalia se a decisão foi boa ou má, limita-se a tornar clara a escolha inicial.
3) Preparar as duas folhas de trabalho
Na primeira folha, escrevam no topo:
SE EU CONTINUAR POR ESTE CAMINHO…
Na segunda folha, escrevam no topo:
SE EU ESCOLHER DE OUTRA MANEIRA…
Em cada folha, dividam o espaço em três partes, com estes títulos:
. Logo de seguida
. Daqui a alguns dias
. Mais à frente
4) Preencher a primeira folha
A criança ou o jovem começa pela folha SE EU CONTINUAR POR ESTE CAMINHO… e escreve o que poderá acontecer se mantiver a escolha inicial.
O adulto ajuda a criança, com perguntas como:
. O que é que acontece logo de seguida?
. O que é que poderá acontecer daqui a alguns dias?
. E mais à frente?
. Isto resolve alguma coisa ou torna a situação mais difícil?
. Esta escolha aproxima-te de uma solução ou afasta-te dela?
Exemplo:
Escolha inicial: “Quis adiar o estudo.”
Logo de seguida: não estudo, pego no telemóvel ou faço outra coisa e o trabalho fica por começar.
Daqui a alguns dias: o tempo começa a faltar, a matéria acumula-se e estudar custa cada vez mais.
Mais à frente: chego ao teste menos preparado, sinto-me inseguro e posso ter um resultado pior do que teria se tivesse começado mais cedo a estudar.
5) Preencher a segunda folha
Agora, a criança ou o jovem imagina uma escolha diferente para a mesma situação e preenche a folha SE EU ESCOLHER DE OUTRA MANEIRA…
O adulto ajuda, com perguntas como:
. Se escolhesses de outra maneira, o que é que poderia acontecer logo de seguida?
. O que é que mudaria daqui a alguns dias?
. E mais à frente?
. Essa escolha (nova) aproxima-te de uma solução ou afasta-te dela?
Exemplo:
Escolha alternativa: “Começar já a estudar, mesmo que seja só durante 10 minutos.”
Logo de seguida: sento-me, começo a estudar e deixo de adiar o que tenho para fazer.
Daqui a alguns dias: a matéria já não está toda acumulada e estudar torna-se menos difícil.
Mais à frente: chego ao teste mais preparado, com mais segurança e com maior probabilidade de ter um bom resultado.
6) Comparar as duas folhas
Coloquem agora as duas folhas, lado a lado, e observem-nas com calma.
O adulto ajuda a criança a comparar, com perguntas como:
. O que é que muda de uma decisão para a outra?
. Qual destas decisões ajuda, de uma forma mais clara, a resolver a situação?
. Qual delas pode trazer mais problemas no futuro?
. De qual destas decisões é mais provável que te venhas a arrepender?
. Depois de olhares para as duas folhas, qual te parece a decisão mais acertada?
Exemplo:
Em qual destas decisões é mais provável que venhas a arrepender-te?
Se eu adiar o estudo agora, é mais provável que me arrependa depois, quando vir que o tempo já não chega, que a matéria se acumulou e que já não consigo preparar-me com a calma de que precisava.
7) Introduzir a dimensão dos outros
Depois de compararem as duas decisões, acrescentem perguntas que ajudem a criança a perceber que aquilo que escolhe também pode afetar os outros.
O adulto ajuda a criança a comparar, com perguntas como:
. O que é que muda, para os outros, de uma decisão para a outra?
. Em qual destas decisões é mais provável que os outros fiquem melhor?
. Em qual delas é mais provável que os outros fiquem prejudicados?
. Qual destas decisões revela mais cuidado com os outros?
. Qual delas pode criar mais dificuldades à tua volta?
Exemplo:
Qual delas pode criar mais dificuldades à tua volta?
Se eu deixar sempre o estudo para depois, não sou só eu que sofro as consequências. Em casa, pode haver mais pressão, menos paciência, mais conflitos por causa do tempo que já se perdeu e uma sensação de urgência que acaba por afetar todos.
8) Escolher uma frase de orientação
No final do exercício, a criança ou o jovem escreve uma frase curta, simples e clara, que possa recordar quando voltar a encontrar-se perante uma situação semelhante. Essa frase deve ajudá-la a parar, a pensar no que pode acontecer depois e a não decidir apenas em função do que sente no momento.
Exemplos:
“Antes de decidir, vou pensar no que pode acontecer depois, imaginando pelo menos duas possibilidades.”
“Vou lembrar-me de que a escolha mais simples de tomar no momento nem sempre é a mais acertada.”
“Antes de tomar uma decisão, vou pensar também no efeito que ela pode ter em mim e nos outros.”
PORQUÊ ESTE DESAFIO?
Porque muitas das escolhas precipitadas, realizadas ao longo da vida, não são fruto de falta de inteligência, mas da dificuldade em sair mentalmente do “agora” e em perceber, com alguma clareza, o que “pode vir a acontecer depois”.
Este exercício ajuda a criança ou o jovem a comparar possibilidades, a antecipar consequências e a reconhecer que o futuro não é um acontecimento súbito – vai sendo construído, pouco a pouco, na forma como se pensa e se decide, ao longo de toda a vida.
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Créditos da imagem: Jan Genge (Unsplash)





