Caderno Esfera Líquida

Textos, ideias e desafios para pensar, viver e decidir melhor!

Um espaço de leitura e reflexão continuada, onde se aprofundam as questões, as ideias e as inquietações que dão sentido à Esfera Líquida. Um espaço que se renova com novos textos, novas perguntas e diferentes formas de pensar o presente e o futuro.

235 publicações10 de Março de 2025 – 24 de Abril de 2026
Crianças e Jovens 8 min 9 Abr 2026 Por cesarisraelpaulo
Isto é para ti, criança ou jovem que estás a ler!
Para Crianças e Jovens

Para crianças e jovens: Antes de decidires, viaja um pouco até ao futuro!

Para crianças e jovens: Antes de decidires, viaja um pouco até ao futuro!

(Nota: Texto diretamente dirigido a crianças e jovens)

Se tens acompanhado esta série de publicações, já percebeste uma coisa muito importante – pensar bem não é fazer sempre o mesmo tipo de raciocínio!

Ao longo das últimas reflexões publicadas neste espaço, aprendeste a observar antes de reagir (pensamento analítico), a estabelecer relações entre causas e consequências (pensamento lógico), a não acreditar em tudo só porque parece verdade (pensamento crítico), a definir um objetivo e encontrar o melhor caminho para o atingires (pensamento estratégico, a inventar alternativas quando parece que não há saída (pensamento criativo) e a perceber que tudo está ligado a tudo (pensamento sistémico).

Vamos então dar mais um passo! Hoje vamos falar de outro modo de pensar. Provavelmente nunca ouviste falar dele na escola, e, no entanto, é um dos que mais te vai ajudar na vida.

Chama-se pensamento prospetivo (ou pensamento futurista).

O nome pode parecer difícil, mas a ideia central a ele associada é mais simples do que pensas.

Pensar de forma prospetiva é seres capaz de te imaginar no futuro, antes de ele acontecer.

Não é adivinhar o que vai acontecer (ninguém consegue fazer isso), é conseguires perguntar a ti próprio, por exemplo: “Se eu fizer isto agora, o que é que pode acontecer a seguir? Como é que me vou sentir amanhã? E daqui a uma semana? E o que é que isto vai significar para as pessoas à minha volta?”

Parece pouco, mas muda tudo!

Porque é que isto é tão importante?

Repara numa coisa que te acontece quase todos os dias.

Alguém te diz algo que não gostas de ouvir. Logo, ficas irritado e respondes. E, meia hora depois, já estás arrependido porque percebeste que aquilo que disseste piorou a situação em vez de a resolver.

Ou então: tens um teste daqui a três dias. Sabes que devias estudar, mas “agora não te apetece”. Pegas no telemóvel. Passa uma hora, passa outra. … e quando finalmente te sentas a estudar, já é tarde, já estás cansado e o resultado fica muito aquém do que podias ter conseguido.

Ou ainda: um amigo propõe-te algo que, lá no fundo, sabes que não é boa ideia. Mas, naquele momento, parece-te divertido. Aceitas, … e dias depois, percebes que a decisão teve consequências que não tinhas previsto, nem para ti, nem para outros.

Em todos estes casos, faltou a mesma coisa:

A capacidade de “ir ao futuro” antes de decidir no presente. E é exatamente isso que o pensamento prospetivo te ensina a fazer!

Como é que se faz?

Não é complicado, mas exige prática regular.

A melhor forma de começar é com perguntas. Perguntas que fazes a ti próprio, antes de agir:

“Se eu escolher isto, o que é que vai acontecer a seguir?”

Esta é a pergunta mais simples e mais poderosa. Não precisas de acertar na resposta. Precisas apenas de parar uns segundos e tentar imaginar.

“Como me vou sentir em relação a esta decisão dentro de uma semana?”

Às vezes, uma coisa que agora parece boa, deixa de o parecer passados alguns dias. E, às vezes, uma coisa que agora parece difícil ou aborrecida é exatamente aquela de que te vais orgulhar mais tarde.

“Imagina duas versões do que pode acontecer. Numa, ficas satisfeito. Noutra, talvez te arrependas. O que as distingue?”

Esta pergunta ajuda-te a perceber que quase todas as decisões têm dois caminhos possíveis/dois finais e que a diferença entre eles depende, muitas vezes, de uma escolha que podes fazer agora.

“O que faria, nesta situação, a pessoa em que me quero tornar?”

Esta é, talvez, a pergunta mais importante de todas. Porque te obriga a pensar não apenas no que te apetece agora, mas na pessoa que estás a construir, todos os dias, com cada decisão que tomas.


Três situações do teu dia-a-dia, para testarmos este novo poder.

Situação 1 – “Não me apetece estudar”

É uma frase que conheces bem. E, quando a dizes, normalmente o que se segue é alguém a lembrar-te da nota, do teste ou da obrigação. Tu ouves, mas, lá por dentro, não te altera grande coisa.

O pensamento prospetivo propõe-te algo diferente. Em vez de pensares no teste como uma ameaça, tenta colocar-te lá, no momento de realização do teste. Imagina duas versões desse momento: numa, chegaste preparado, sabes as respostas, sentes-te seguro; noutra, chegaste a improvisar, ficas nervoso, não consegues responder ao que sabias que devias saber.

Quando consegues sentir, de verdade, a diferença entre esses dois cenários, a motivação deixa de vir “de fora” e passa a vir “de dentro”. E essa segunda é a motivação que dura ao longo do tempo e que te transforma.

Situação 2 – Um amigo propõe-te algo de que não tens a certeza

Pode ser algo “pequeno” tal como faltar a uma aula, copiar num trabalho, dizer algo sobre alguém que não é verdade.

No momento, parece que não tem grande importância. Mas tenta fazer este exercício: imagina-te daqui a um mês. A decisão já foi tomada. Agora pensa: estás satisfeito com o que fizeste? Voltarias a fazê-lo? Ou preferias ter escolhido de outra forma/outro caminho?

Se a resposta te deixa desconfortável, é porque o teu pensamento prospetivo está a funcionar. Está a mostrar-te algo que o momento presente, sozinho, não te deixava ver.

Situação 3 – Queres desistir de uma atividade porque “já não te apetece”

Pode ser um desporto, uma aula de música, um determinado projeto.

A vontade de desistir é real e ninguém te vai dizer que não a podes sentir.

Mas a pergunta que vale a pena colocares a ti próprio é esta: imagina-te daqui a um ano. Quem és, se continuaste? E quem és, se desististe? Qual dessas duas pessoas preferes ser?

A resposta pode surpreender-te! Acredita!

Mais, há uma coisa que talvez possas ainda não ter percebido – o pensamento prospetivo não serve apenas para te proteger a ti, também serve para proteger os outros.

Quando te perguntas “Como é que isto vai afetar as pessoas à minha volta, não apenas agora, mas daqui a algum tempo?”, estás a fazer algo muito raro e muito precioso – estás a pensar para além de ti. E é exatamente aí que o pensamento prospetivo se torna mais do que uma ferramenta pessoal, torna-se numa forma de cuidar dos outros.

Mas há mais!

O pensamento prospetivo não serve apenas para pensares nas tuas próprias escolhas. Serve também para olhares com atenção à tua volta e perceberes o que está a acontecer no mundo e que futuro é que isso está a construir.

Reflete, por exemplo, sobre estas questões práticas:

. Quando vês lixo espalhado na tua rua, o que é que isso diz sobre o futuro desse lugar?

. Quando lês notícias relativas ao que a inteligência artificial já consegue fazer, nas mais diversas áreas do trabalho e do conhecimento, que futuro é que te parece que se está a preparar para ti e para todos?

. Quando reparas na forma como as pessoas se tratam umas às outras na tua escola, que ambiente é que está a ser construído para todos?

Pensar de forma prospetiva não é apenas perguntar “O que me vai acontecer a mim?”.

É também perguntar: “O que pode acontecer ao lugar onde vivo, à minha escola, à minha comunidade ou ao mundo, se continuarmos por este caminho?”

Esta pergunta é de uma dimensão atroz, mas não precisas de lhe responder sozinho.

Mas só o simples facto de a fazeres já te coloca num lugar muito diferente da maioria dos teus colegas e familiares – o lugar de quem não se limita a viver no mundo, mas que começa a compreender que também o está a construir, passo a passo.

Porque a verdade é que o futuro não depende apenas do que tu fazes. Depende também da forma como aprendes a ler, a avaliar e a responder ao que os outros fazem à tua volta.

E isso é pensamento prospetivo na sua forma mais completa.

Que reflexões podemos retirar deste curto texto?

O pensamento prospetivo não te pede que adivinhes o futuro. Pede-te apenas que, antes de decidires, te dês ao trabalho de o imaginar, de pensar no que pode acontecer, de sentir, por antecipação, as consequências do que vais escolher.

E pede-te, também, que olhes para o que te rodeia com olhos de quem sabe que tudo aquilo que acontece hoje está a preparar o amanhã, o teu e o de todos!

Ninguém acerta sempre, mas quem pensa antes de agir acerta muito mais vezes do que quem apenas reage.

E, no fundo, é isto que este tipo de pensamento te ensina – o futuro não é uma coisa que te acontece, é algo que tu já estás a construir, com cada escolha que fazes e com cada análise que realizas relativamente ao que se passa à tua volta.

Na próxima publicação desta série, vamos falar do último tipo de pensamento – o pensamento ético.

Se o pensamento prospetivo te ensina a perguntar “O que vai acontecer?”, o pensamento ético ensina-te a questionar “O que é que deve acontecer?”.

E essa pergunta, como vais ver, muda tudo … outra vez!

Até breve e bom regresso às aulas.

Se esta reflexão te fez sentido, partilha-a com um amigo. E pede aos teus pais que subscrevam esta página, para acompanhar esta série sobre aprender a pensar.

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Créditos da imagem: Emile Guillemot (Unsplash)

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