DESAFIO EM FAMÍLIA: ENTENDER AS RELAÇÕES ENTRE AS PARTES, PARA COMPREENDER MELHOR O MUNDO!

Idades: a partir dos 10 anos
Duração: 120 a 150 minutos
OBJETIVO CENTRAL
Ajudar a criança/jovem a compreender que muitos problemas do mundo atual não se explicam por uma causa única, nem se resolvem com soluções simplistas; e a aprender, em família, a olhar para um problema, de forma mais profunda, identificando relações, causas, consequências, padrões e efeitos em cadeia.
MATERIAIS E METODOLOGIAS
. Um caderno ou folhas A4;
. Canetas ou lápis;
. Post-its ou pequenos cartões;
. Um jornal, notícia impressa ou notícia aberta num computador/tablet;
. Um espaço tranquilo, sem distrações.
PASSO A PASSO
1. Escolher um problema real
Em família, escolham um problema da sociedade atual que, para além de ser um tema mais vasto, tenha também efeitos concretos na vida da família e faça parte da realidade que vivem, observam ou sentem de perto.
Exemplos possíveis de grandes temas, para que depois possam passar a um caso concreto, para análise:
. uso excessivo de telemóveis e redes sociais;
. alterações climáticas;
. aumento dos preços e dificuldades económicas das famílias;
. guerra e as suas consequências;
. solidão e isolamento das pessoas;
. excesso de informação e notícias falsas;
. dificuldades de concentração das crianças e dos jovens;
. dependência tecnológica;
. falta de tempo das famílias.
Regra importante: não escolham o tema para “dar razão” a alguém. Escolham-no para o tentar compreender melhor.
2. Descrever o problema com clareza
Escrevam, no caderno, uma primeira formulação simples:
“O problema que queremos compreender melhor é ______.”
Depois acrescentem:
“À primeira vista, este problema parece acontecer porque ______.”
Este segundo passo é importante, porque ajuda a colocar em cima da mesa a explicação mais imediata, ou seja, aquela que muitas das vezes damos, sem pensar muito.
Exemplo:
– O problema que queremos compreender melhor é o uso excessivo do telemóvel pelos jovens da minha turma.
– À primeira vista, este problema parece acontecer porque os jovens “não se controlam”.
3. Perguntar: será mesmo só isso?
Agora iniciamos o verdadeiro trabalho sistémico!
Escrevam esta pergunta no centro da folha:
“Que outras coisas podem estar ligadas a este problema?”
Cada pessoa da família escreve, em silêncio, entre 5 e 8 fatores que possam estar relacionados com o tema escolhido.
Exemplo: “Uso excessivo do telemóvel por parte dos colegas da turma”
. aborrecimento;
. notificações constantes;
. necessidade de pertença;
. cansaço mental;
. falta de alternativas interessantes;
. pressão dos amigos;
. modelos de comportamento dos adultos;
. plataformas feitas para prender a atenção;
. sono desregulado;
. dificuldade em lidar com o silêncio.
Nesta fase, o objetivo não é discutir. É ampliar o olhar!
4. Organizar as várias partes do problema
Agora, com os post-its ou cartões à frente, agrupem os fatores por áreas.
Podem usar categorias como estas:
. hábitos pessoais;
. família;
. escola;
. tecnologia;
. economia
. saúde;
. relações sociais;
. ambiente;
. política / sociedade.
Este passo é muito importante porque demonstra, de forma visual, que um problema da sociedade raramente pertence a uma só “gaveta”!
5. Perceber que disciplinas escolares podem ajudar a compreender melhor este problema
Depois de organizarem os vários fatores do problema, façam agora uma nova pergunta: “Que disciplinas da escola nos podem ajudar a compreender melhor esta situação?”
Tentem pensar em conjunto, por exemplo:
. Que parte deste problema pode ser melhor entendida com a ajuda da História?
. Que aspetos exigem conhecimentos de Geografia?
. Onde é que as Ciências podem ajudar a explicar melhor o que está em causa?
. Há dados, números, percentagens ou comparações em que a Matemática possa ser útil?
. O Português pode ajudar a interpretar melhor uma notícia, um discurso ou uma informação a este respeito?
. A Filosofia ou a Cidadania e Desenvolvimento podem ajudar a pensar melhor os valores, as escolhas e as responsabilidades envolvidas?
No caderno, façam uma pequena tabela com duas colunas:
Disciplina | Como pode ajudar a compreender este problema
Exemplo: “Uso excessivo do telemóvel por parte dos colegas da turma”
Ciências – pode ajudar a perceber os efeitos no sono, na atenção e no cérebro;
Matemática – pode ajudar a ler dados estatísticos sobre tempo de ecrã ou hábitos de utilização;
Português – pode ajudar a interpretar textos, notícias e opiniões sobre o tema;
Cidadania e Desenvolvimento – pode ajudar a pensar nas escolhas, nos direitos, nos limites e nas responsabilidades;
Este passo é importante porque ajuda a criança a perceber que muitos problemas reais não pertencem a uma única disciplina. Pelo contrário, obrigam a conectar diferentes saberes. E é precisamente essa conexão que torna a compreensão mais profunda e mais completa.
6. Procurar ligações entre as partes
Depois de identificarem os fatores envolvidos e de pensarem nas disciplinas que vos podem ajudar a compreendê-los melhor, avancem agora para uma pergunta central do pensamento sistémico:
“Que elementos deste problema estão ligados entre si?”
Tentem refletir em conjunto:
Que fatores parecem influenciar outros?
Há elementos que fazem o problema crescer mais depressa?
Há relações que não tínhamos visto no início?
Se quiserem, podem ligar os cartões com setas.
Exemplo:
mais notificações → mais tempo de ecrã → menos sono → menos concentração → mais cansaço → maior procura do telemóvel como escape.
Nota que às vezes, uma consequência volta a alimentar a própria causa, e é isso que faz o problema repetir-se, repetir-se, …
Neste momento, a criança (e a família) começa a entender que um problema não é apenas uma lista de coisas, mas sim uma rede de relações!
7. Distinguir causa, consequência e fatores de agravamento
Agora, tentem diferenciar melhor os elementos que encontraram.
No caderno, façam três colunas:
1. Coisas que podem estar na origem do problema
2. Coisas que aparecem como consequência
3. Coisas que agravam o problema ou o fazem repetir-se
Este momento é importante porque ajuda a compreender que aquilo que identificamos como problema principal é, muitas vezes, apenas o resultado mais visível de fatores, decisões e acontecimentos que já vinham de trás.
8. Identificar padrões
Escrevam agora esta frase:
“O padrão que estamos a descobrir é que ______.”
O objetivo é tentar perceber se existe uma lógica repetida.
Exemplos:
– “Quanto mais cansados e aborrecidos os meus colegas estão, mais procuram o telemóvel e isso acaba por lhes aumentar ainda mais o cansaço.”
– “Quando os idosos do lar aqui ao lado têm medo e pouco acesso a informação verificada, tornam-se mais vulneráveis a notícias falsas.”
– “Quanto mais hábitos de consumo descartável existem numa família, mais lixo essa família produz; e, quando os contentores de reciclagem se enchem depressa ou ficam mal fechados, aumenta a probabilidade de aparecerem gaivotas e de o lixo se espalhar, tornando mais difícil manter limpo e cuidado o espaço à volta de casa.”
Este passo ajuda a perceber que o problema não se reduz a um episódio isolado, mas integra uma sequência (que, muitas vezes, tende a repetir-se). Mais do que constatar essa repetição, importa compreender o que, no interior da própria situação, a favorece, a retroalimenta e a torna mais provável de voltar a acontecer.
9. Refletir sobre as consequências e os seus efeitos
Reflitam, agora, sobre uma questão essencial:
“Se este problema continuar assim, o que é que pode acontecer depois?”
Tentem pensar com mais profundidade, colocando, por exemplo, as seguintes questões:
. Quem pode vir a ser afetado por esta situação, para além de quem já está diretamente envolvido?
. Que outras dificuldades pode este problema vir a causar?
. Aquilo que hoje parece limitado a um caso pode alargar-se a outras pessoas, espaços ou situações?
. Se nada mudar, é provável que este problema se mantenha igual, se agrave ou dê origem a outros?
. Que consequências podem surgir daqui a algum tempo, mesmo que ainda não sejam, agora, visíveis?
Este momento é muito importante porque ajuda a entender que um problema não se limita ao instante em que surge. Muitas vezes, continua a produzir consequências, influencia outras situações e acaba por ter um alcance muito maior do que parecia no início!
É também aqui que a criança começa a praticar uma capacidade muito relevante (associada ao pensamento futurista) – a de não olhar apenas para o agora, mas também para o que pode acontecer a seguir.
10. Pensar onde é que pode começar a mudança
Depois de compreenderem melhor o problema, façam uma nova pergunta:
“Se quiséssemos começar a melhorar esta situação, por onde faria mais sentido começar?”
Esta pergunta é muito importante porque ajuda a compreender uma ideia central do pensamento sistémico – nem todos os componentes de um problema têm o mesmo peso, e nem todas as mudanças produzem o mesmo efeito. Muitas vezes, perceber onde vale mais a pena intervir é tão importante como compreender o problema em si.
Por isso, voltem ao tema que escolheram e tentem pensar:
. Que elemento parece estar mais ligado ao agravamento da situação?
. Que hábito, decisão, regra ou comportamento, se fosse alterado, poderia ajudar a minimizar o problema?
. Há algum ponto em que uma pequena mudança pudesse ter efeitos mais amplos?
. Essa mudança dependeria mais das pessoas, das famílias, da escola, das empresas, dos governos ou da sociedade em geral?
. Quem tem mais responsabilidade ou mais poder para agir sobre este problema?
O objetivo deste passo específico do desafio não é encontrar uma solução perfeita, nem imaginar que um problema com alguma complexidade se resolve rapidamente. O objetivo é ajudar a criança a entender que, mesmo nas questões mais difíceis, vale a pena questionar onde pode iniciar a mudança e quem pode contribuir significativamente para ela.
11. Registar o que foi compreendido
Para terminar, cada pessoa da família completa oralmente esta frase:
“Hoje percebi melhor que este problema não depende apenas de ______, mas também de ______ (e de ______, …).”
Depois, escrevam em conjunto, no caderno:
“O mais importante que compreendemos foi que ______.”
Este último momento deve ser realizado com toda a atenção. Não serve apenas para “finalizar o exercício”, mas para ajudar a consolidar tudo aquilo que a conversa tornou mais percetível.
O objetivo é que a criança perceba que muitos problemas da sociedade não se explicam por uma única causa, nem podem ser compreendidos a partir de um único ponto de vista. Para os entender melhor, é preciso aprender a reconhecer relações, contextos, consequências, padrões e diferentes níveis de inteligibilidade.
Se quiserem aprofundar um pouco mais, podem ainda conversar, guiados por questões como:
. O que é que, no início, ainda não estávamos a conseguir ver?
. Que ideia demasiado simplista tivemos de corrigir?
. Que relações compreendemos melhor ao longo do desafio?
. O que nos mostra este problema sobre o mundo em que vivemos?
PORQUÊ ESTE EXERCÍCIO?
Porque muitos dos problemas do mundo atual não podem ser compreendidos através de explicações únicas, rápidas ou superficiais.
Este desafio ajuda a criança a olhar para uma questão complexa, próxima de si, com mais atenção, a reconhecer relações entre diferentes fatores, a perceber que há causas próximas e causas mais distantes, consequências imediatas e consequências mais tardias, e que muitas situações só se tornam compreensíveis quando se compreende a rede de elementos que as sustenta.
Ajuda-a ainda a compreender que aquilo que aprende na Escola não está verdadeiramente separado em disciplinas, sem relação entre si. Quando tenta compreender, com outra profundidade, um problema real do mundo, é conduzida a cruzar conhecimentos de diferentes áreas – como a História, a Geografia, as Ciências, a Matemática, o Português, a Filosofia ou a Cidadania e Desenvolvimento – e começa a perceber, de forma mais clara, que aquilo que aprende numa disciplina também a pode ajudar a compreender melhor aquilo que estuda noutra.
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Créditos da imagem: Conny Schneider (Unsplash)






