O seu filho é capaz de imaginar o futuro? Esta é a competência que praticamente ninguém lhe ensina!

Depois de termos percorrido, ao longo desta série, o pensamento analítico, o pensamento lógico, o crítico, o estratégico, o criativo e o pensamento sistémico, chegou então o momento de nos determos num modo de pensar pouco presente nas conversas entre pais e educadores, e, em muitos aspetos, até quase ausente da Escola; mas que, pelas suas características, associa todos os outros – o pensamento prospetivo. O simples facto de também não ser um tema habitual “à mesa das famílias” constitui, por si só, mais um indício de que merece uma reflexão cuidada e aprofundada.
O pensamento prospetivo (também designado por pensamento futurista) é a capacidade de nos projetarmos mentalmente no tempo que ainda não vivemos, de simular cenários que não aconteceram, de antecipar as consequências das escolhas que fazemos e de ajustar, no agora, o nosso comportamento à luz do que imaginamos que poderá vir a suceder. Importa, desde logo, distingui-lo de algo com que frequentemente se confunde – planear, no sentido administrativo (fazer listas, definir horários, preencher agendas, …). O pensamento prospetivo é consideravelmente mais profundo e mais humano do que isso. Não se trata de organizar tarefas, mas de ocupar, com a imaginação e com o “corpo”, um futuro que ainda não chegou, e de permitir que essa ocupação altere, de forma concreta, o modo como agimos no presente.
A investigação em neurociência cognitiva designa esta faculdade como uma “viagem mental no tempo”, uma expressão que procura dar nome ao que poderá ser uma das capacidades mais extraordinárias da mente humana, a de abandonar mentalmente o instante presente e de se projetar, com clareza e com uma dimensão muito pessoal, num futuro que ainda não se concretizou. Ao contrário de um diário ou de um calendário, que se limitam a registar intenções, a viagem mental ao futuro permite antecipar um acontecimento, sentir a sua dimensão, avaliar as suas necessidades e agir em conformidade, no presente. É, no sentido mais completo da expressão, a estrutura cognitiva da antecipação, uma estrutura que se constrói no ser humano ou que se deixa debilitar.
Já a investigação em psicologia do desenvolvimento tem demonstrado que as crianças começam a revelar os primeiros indícios desta capacidade por volta dos quatro anos de idade, mas que a sua mobilização plena e flexível continua a desenvolver-se ao longo de toda a adolescência (acompanhando o desenvolvimento do córtex pré-frontal, a região do cérebro mais estreitamente associada ao planeamento e ao raciocínio antecipatório). Contudo, este dado não deve levar os pais a uma atitude de dilação; deve, pelo contrário, levá-los a compreender a importância de estimular, desde muito cedo, esta competência na criança.
Mais, o pensamento prospetivo não surge de modo espontâneo nem se encontra inteiramente assegurado pelo simples curso do desenvolvimento biológico. Trata-se de uma capacidade que é profundamente influenciada pelo contexto educativo em que a criança cresce, podendo ser estruturada e robustecida, ou, inversamente, fragilizada e inibida, pelas experiências, pelas interações e pelos estímulos a que vai sendo exposta. Cada conversa em que o futuro é convocado, cada pergunta que convida a criança a imaginar as consequências das suas ações, cada momento em que se resiste à tentação de resolver imediatamente algo que ela poderia aprender a antecipar; tudo isto constitui uma forma de treino subtil, cujas consequências podem ser profundas e prolongadas.
Vivemos, na atualidade, numa cultura estruturalmente adversa a este modo de pensar. A imediaticidade tornou-se o valor claramente dominante – um tempo de respostas rápidas, recompensas instantâneas, de gratificações sem delonga e até de consequências adiadas ou ignoradas. A título de exemplo, a lógica das plataformas digitais, concebidas de forma muito intencional para reduzir o intervalo entre o impulso e a ação, não se apresenta enquanto contexto neutro em que as crianças, por acaso, crescem. É um ambiente que treina ativamente a reatividade e que, ao fazê-lo, destrói precisamente a capacidade cognitiva de que o pensamento prospetivo mais necessita: a de parar, de projetar e de ponderar. Uma criança habituada a obter tudo de imediato (quer seja a resposta, o entretenimento ou a recompensa), é uma criança cujo “músculo da antecipação” não está a ser exercitado (e não nos podemos esquecer que um músculo que não se exercita, atrofia!).
Sabemos também, hoje, que a forma como cada pessoa se orienta perante o tempo (se mais voltada para o passado, para o presente ou para o futuro) é um dos mais poderosos preditores da qualidade das suas escolhas, em todos os domínios da vida, seja na saúde, na educação, nas relações humanas ou nas suas decisões quotidianas.
Ao contrário do que muitos pais tendem a supor, orientar-se para o futuro não significa potenciar a ansiedade, mas sim desenvolver uma maior capacidade de autocontrolo, de ponderação e uma menor vulnerabilidade à tomada de decisões precipitadas. Trata-se de uma competência que se constrói e a família é, sem margem para dúvida, um dos terrenos mais férteis para o seu desenvolvimento, já que é na família que a criança começa a compreender, na experiência concreta do quotidiano, que as escolhas do presente produzem efeitos que se prolongam no tempo, ou seja, podem ter impactos duradouros.
Um dos casos mais citados a propósito do pensamento prospetivo remonta a uma experiência conduzida, no final da década de sessenta do século vinte, num jardim de infância. Crianças de quatro anos foram colocadas perante uma escolha simples e clara: um doce dado agora, ou dois, se conseguissem esperar alguns minutos. O que tornou a experiência notável não foi o momento da escolha em si, mas o que se foi descobrindo ao longo das décadas seguintes. As crianças que conseguiram esperar (ou seja, que foram capazes de adiar a recompensa imediata, em nome de um ganho futuro) vieram a apresentar, na adolescência e na vida adulta, resultados académicos superiores, com maior segurança emocional e competências sociais mais consistentes. Não se tratava simplesmente de crianças mais obedientes ou mais controladas, mas da capacidade de regular o comportamento presente em função de um benefício posterior. Essa capacidade, que inicialmente poderia ser lida como simples paciência, revelou-se uma competência com significado preditivo relevante para o seu desenvolvimento posterior, nomeadamente ao nível da autorregulação e da capacidade de adaptação pessoal e social.
Quando o pensamento prospetivo não é suficientemente desenvolvido, as consequências não surgem de uma só vez. A criança que ainda não aprendeu a “projetar-se no tempo” não é, necessariamente, uma criança que revela um problema de comportamento, mas é uma criança para quem o futuro permanece abstrato, e que, por essa razão, vive cada momento como se fosse o único a ter em conta. Num conflito com um amigo, por exemplo, diz algo de que mais tarde se arrepende, porque ainda não consegue antecipar o impacto que essas palavras poderão ter no dia seguinte. Faz uma escolha que a prejudica, porque as consequências dessa escolha ainda se situam num horizonte que ninguém, até então, a ajudou a compreender de forma suficientemente concreta.
Mais, o pensamento prospetivo exige um treino continuado. Quando essa preparação não existe, a criança tende a reincidir no mesmo padrão. A escola tem um papel relevante neste processo, mas é a família, pela proximidade do quotidiano, que mais facilmente pode dar a esse trabalho a continuidade de que ele necessita.
As consequências da ausência deste treino não se limitam, porém, ao rendimento escolar ou ao comportamento em casa. Uma criança que não aprendeu a pensar de forma prospetiva é uma criança permanentemente refém do imediato, do impulso, da pressão social do momento. Torna-se mais permeável a formas de pressão e de manipulação, que sobrevalorizam o que é imediato e desvalorizam as consequências futuras. Decide com menor consciência do alcance dos seus atos e avalia com menor clareza o que pode perder ou ganhar (diretamente e/ou indiretamente) com uma determinada decisão.
Há, no entanto, uma distinção que convém deixar muito clara – pensar no futuro não é o mesmo que ter medo do futuro. Uma criança ansiosa em relação ao porvir não está a exercitar pensamento prospetivo, está a ser dominada por ele, numa forma distorcida e desregulada. O pensamento prospetivo saudável é, na verdade, o oposto do sentimento de ansiedade, é a capacidade de olhar para o futuro com clareza suficiente para agir no presente com mais tranquilidade, mais segurança e mais intencionalidade.
Ensinar pensamento prospetivo, nessa medida, não se deve confundir com “fazer sermões sobre consequências”. Não se trata de ensinar as crianças a recear o que virá, mas de as ajudar a compreendê-lo. A abordagem do sermão, ainda que bem-intencionada, produz, na grande maioria dos casos, uma lógica de obediência sem compreensão; e quando a compreensão não acompanha a obediência, dissipa-se. O que se pede aos pais (e à escola), na prática, é algo mais demorado e mais íntimo – o hábito de ajudar as crianças a imaginar o futuro em termos concretos e pessoais. Não “Se fizeres isso, vais ter problemas”, mas antes “Vamos pensar, em conjunto, no que acontece depois desta escolha ser feita, não apenas amanhã, mas no dia seguinte, e na semana seguinte”. Esta diferença não é apenas uma questão semântica, é a diferença entre proferir um aviso (circunstancial) e desenvolver, de forma lenta e consistente, uma competência que permanecerá no tempo, durante toda a sua vida.
No quotidiano de uma família, este trabalho parental surge em momentos que, à primeira vista, podem até parecer ter pouco a ver com o futuro. Quando uma criança se recusa a ir à festa de aniversário de um amigo porque, naquele momento, se sente tímida, a pergunta que poder ser importante fazer não é “Mas afinal queres ir ou não?”, mas sim, por exemplo, “Consegues imaginar como te vais sentir quando lá estiveres e como te vais sentir na segunda-feira se não tiveres ido?”. Quando uma criança hesita em começar um trabalho escolar porque este lhe parece longo e complexo, a resposta mais eficaz não é apenas imaginar o alívio de o ver concluído, mas pedir-lhe que diga, pelas suas próprias palavras, o que ficará efetivamente resolvido quando o terminar, que objetivo concreto estará a cumprir e que competência sua estará a fortalecer ao conseguir concluí-lo. Quando um jovem quer desistir de uma atividade extracurricular porque “já não lhe apetece”, a resposta do pai não deverá ser nem a imposição nem a cedência, mas o convite a imaginar-se daqui a um ano: quem será, se continuar, e quem será, se desistir; e, feita essa projeção, qual das duas versões de si própria prefere.
O futuro tem de se tornar concretamente imaginável, antes de poder tornar-se mobilizador!
Quando a criança diz “não me apetece estudar”, a reação mais frequente é argumentar com a nota, com o teste ou com a obrigação. Mas esse argumento coloca o futuro num plano abstrato – o plano da consequência imposta pelo adulto, que a criança ouve, mas que não chega a “sentir como seu”. O pensamento prospetivo proporciona algo bastante diferente: convida a criança a colocar-se, ela própria, no momento do teste, não enquanto ameaça, mas enquanto cenário que pode ser vivido de antemão, e a sentir, dentro de si, a diferença entre chegar preparada a esse momento e chegar e improvisar. Quando essa diferença se torna pessoalmente significativa, ou seja, quando a criança consegue antecipar a satisfação de ter feito o trabalho e o desconforto de o não ter feito, a motivação deixa de depender do que o adulto diz e passa a nascer da própria criança. Essa é, na verdade, a motivação que tende a manter-se ao longo do tempo, porque se enraíza na própria criança e não decorre apenas de uma imposição exterior.
Há ainda uma outra dimensão do pensamento prospetivo pouco reconhecida e que também vale a pena destacar nesta curta reflexão – a capacidade de compreender não apenas o impacto que uma escolha terá para quem a faz, mas aquele que terá para os que lhe são próximos, e num horizonte temporal que vai muito além do imediato. Uma criança capaz de se projetar no tempo e de se interrogar sobre “Como é que isto vai afetar as pessoas à minha volta, não apenas agora, mas daqui a um mês, ou daqui a um ano?” é uma criança que está a aprender a ponderar as suas decisões não apenas à luz do que lhe convém, mas à luz da sua relação com os outros, o que é, porventura, uma das formas mais distintas de responsabilidade que se pode despertar numa criança, em que o pensamento prospetivo ultrapassa o interesse de quem o pratica e passa a proteger, igualmente, os que lhe são próximos e o que entre todos é comum.
No quotidiano de uma família, as perguntas que com maior poder exercitam este modo de pensar são as que convocam a criança a avançar mentalmente no tempo: “O que é que achas que vai acontecer se escolheres isto?”. “Como te poderás sentir em relação a esta decisão dentro de uma semana?”. “Imagina duas versões do que pode acontecer – numa, ficas satisfeito; noutra, talvez te arrependas. O que as distingue? “O que faria, numa situação como esta, a pessoa em que te queres tornar no futuro?”. “Se pudesses retornar a este momento daqui a um mês, o que gostarias que o teu eu de agora tivesse escolhido?”.
Note-se que estas perguntas não são retóricas, são convites genuínos para que a criança se coloque, durante alguns segundos, no lugar da pessoa que ainda não é, mas que já pode começar a projetar. E é nesse exercício, imperfeito, mas intencional, que o pensamento prospetivo se vai consolidando, passo a passo. Mais, nenhuma destas perguntas tem uma resposta certa, e é bom que assim seja! Não se trata de conduzir a criança à conclusão que o adulto já possui, uma vez que isso seria uma forma subtil de manipulação disfarçada de educação. O que se pretende é que a criança possa, por si própria, exercitar a capacidade de se projetar no tempo, e que nesse exercício vá descobrindo o que verdadeiramente valoriza, o que deseja proteger e o que está disposta a adiar, no presente, em nome de algo que ainda não aconteceu, mas que já consegue antecipar.
Importa, no entanto, não reduzir o pensamento prospetivo apenas ao plano das escolhas pessoais. É também aprender a ler, com seriedade, o que está a ser feito no mundo à nossa volta, e a perguntar que futuro está a ser construído por essas ações, decisões e omissões. Uma criança que desenvolve pensamento prospetivo não se limita a perguntar “O que me irá acontecer se eu escolher isto?”, começa também, pouco a pouco, a perguntar “O que pode acontecer ao lugar onde vivo, à minha comunidade, ao meu bairro, à minha escola ou ao mundo, se continuarmos por este caminho?”. Esta transição do plano individual para o plano coletivo é decisiva, porque ensina a criança a compreender que o futuro não depende apenas do que ela faz, mas também da forma como aprende a interpretar criticamente o rumo das ações humanas à sua volta.
Nessa medida, o pensamento prospetivo não serve apenas para evitar erros pessoais ou tomar decisões mais ponderadas no quotidiano. Serve também para formar uma consciência mais alargada, capaz de reconhecer que há gestos, hábitos, tecnologias, linguagens, modelos de consumo, formas de relação e decisões públicas ou privadas que, embora pareçam limitadas ou distantes, trazem consigo consequências que se acumulam no tempo e moldam o futuro comum. Educar uma criança neste limite é ajudá-la a perceber que o seu horizonte de responsabilidade não termina em si própria, estende-se ao seu “quilómetro quadrado”, à comunidade de que faz parte e, num sentido mais vasto, ao mundo que herdará e ajudará a transformar.
Ensinar uma criança a pensar de forma prospetiva é, nessa medida, ensinar-lhe que o futuro não é apenas algo que lhe acontece, mas algo que ela já está, e sempre esteve, a construir – tanto nas escolhas concretas do seu quotidiano como na forma como aprende a compreender, a avaliar e a responder ao mundo que os outros, com as suas ações, também vão construindo à sua volta.
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Créditos da imagem: Drew Beamer (Unsplash)





