Para crianças e jovens: Não saltes logo para as conclusões, liga as “peças”!

(Texto diretamente dirigido a crianças e jovens)
Já reparaste que, às vezes, tu até viste bem o que aconteceu, mas, mesmo assim, chegaste a uma conclusão que afinal não estava certa?
Isto acontece quando tens factos (o que realmente aconteceu e qualquer pessoa podia ver ou ouvir) e tens emoções (o que sentes por causa disso – tristeza, raiva, medo – e isso também é real). Mas, mesmo tendo essas duas coisas, ainda podes não conseguir “ligar bem as peças”, ou seja, não consegues perceber o que veio antes e o que veio depois, distinguir uma causa (aquilo que fez acontecer) de uma coincidência (aconteceu ao mesmo tempo, mas não foi por causa disso), e separar uma prova (um sinal claro que confirma a tua ideia) de uma ideia que a tua cabeça criou ou completou.
Na publicação anterior, falámos do pensamento analítico – observar e separar. Agora vem o passo seguinte, o pensamento lógico, que é quando pegas no que observaste e tentas perceber como é que as partes se encaixam. Mas atenção, às vezes, para conseguires “ligar bem as peças”, tens primeiro de voltar ao início – clarificar o que aconteceu mesmo, o que sentiste e o que pensaste que aquilo queria dizer. Ou seja, usar de novo o pensamento analítico. Depois, sim, com os factos separados das emoções e das interpretações, consegues ligar causas e efeitos e tirar conclusões com mais clareza.
Pensar logicamente não é “ser bom a Matemática”, mas sim uma coisa ainda mais útil no dia a dia, que te ajuda a construir uma explicação que faz sentido para um determinado acontecimento ou ação, em vez de adivinhares ou reagires por impulso.
Imagina estas situações (muito comuns):
– Um amigo não te respondeu logo a uma mensagem e tu pensas: “Está zangado comigo.”
– O teu irmão mexeu nas tuas coisas e tu concluis: “Fez de propósito, para me irritar.”
– O professor chamou-te a atenção e tu decides: “Ele não gosta de mim.”
Pode acontecer? Pode. Mas o pensamento lógico faz-te questionar: “A minha conclusão estará mesmo baseada no que aconteceu ou estou a preencher espaços com suposições?”
(Nota: uma suposição é uma ideia que a tua cabeça cria para explicar algo quando não tem toda a informação. Não é um facto, é uma hipótese – pode estar certa, mas também pode estar errada!)
Uma forma simples de treinares isto, é fazeres perguntas que te obrigam a ligar factos, causas e efeitos, com calma e com clareza, tais como:
EXEMPLO 1- Quando um amigo não responde logo a uma mensagem
“Se ele estivesse mesmo zangado comigo, o que é que eu esperaria que ele fizesse a seguir?”
Ajuda-te a perceber que uma explicação lógica costuma ter consequências visíveis. Se essas consequências não aparecem, talvez a explicação não seja a melhor.
“O que aconteceu depois confirma essa ideia, ou mostra que pode haver outra razão?”
Ensina-te a verificar se a realidade acompanha a tua conclusão ou se te obriga a pensar noutra hipótese.
EXEMPLO 2 – Quando o teu irmão mexe nas tuas coisas
“Que outras razões podem explicar isto, além de ele o ter feito de propósito?”
Ajuda-te a não ficares preso a uma única explicação e a considerar causas diferentes para o mesmo acontecimento.
“Se ele tivesse querido irritar-me, o comportamento dele teria sido este ou outro?”
Faz-te comparar a tua explicação com aquilo que normalmente acontece quando alguém age com essa intenção.
EXEMPLO 3 – Quando o professor te “chama à atenção”
“Se o professor não gostasse mesmo de mim, como é que isso se mostraria noutras situações?”
Ajuda-te a perceber que uma explicação lógica precisa de aparecer mais do que uma vez, e não só num momento isolado.
“O que é mais coerente: pensar que isto foi sobre mim como pessoa, ou sobre esta situação concreta?”
Ensina-te a ligar causa e efeito de forma justa, separando o que aconteceu naquele momento da ideia que fazes de ti próprio.
Estas perguntas não servem para negar o que sentes, mas sim para ligar melhor o que aconteceu ao que concluis, evitando decisões apressadas que podem magoar-te a ti ou aos outros. É assim que o pensamento lógico transforma situações confusas em escolhas mais seguras e mais justas.
E há uma outra coisa importante a destacar – pensar logicamente não apaga as tuas emoções! Podes sentir tristeza, raiva, vergonha ou frustração, e isso conta. O pensamento lógico apenas impede que a emoção, sozinha, escolha por ti. Ajuda-te a compreender melhor o que te aconteceu e a decidir com mais coerência.
No fundo, o pensamento lógico é transformar o que vês, numa decisão que faz sentido!
Na próxima publicação, como previsto, passamos do texto à prática – um desafio em família para treinar esta capacidade no quotidiano, com passos simples e situações reais – porque quando aprendes a relacionar bem as coisas, deixas de “saltar” para conclusões precipitadas e começas a construir decisões que te protegem, na escola, com os amigos e em casa.
Se esta reflexão te fez sentido, pede aos teus pais para a partilhar. Para acompanharem esta série sobre ensinar uma criança a pensar e apoiar decisões mais conscientes no quotidiano familiar, subscrevam já esta página.
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Créditos da imagem: Tanja Tepavac (Unsplash)






