O poder do seu filho aprender a alcançar objetivos, ultrapassando o obstáculo que o bloqueia

É frequente, no quotidiano das famílias, circunscrever o conceito de pensamento estratégico a uma lógica de “estratégia de vida”, como se estivéssemos a falar de grandes propósitos existenciais ou de projetos identitários. O pensamento estratégico não existe apenas nesse plano “longínquo”. É mais concreto e mais situado no tempo. Pensar estrategicamente é, antes de mais, saber definir um objetivo, reconhecer um obstáculo que impede a sua concretização e escolher, de forma intencional e informada, as ações que permitem ultrapassar essa barreira com eficácia, e avançar!
O pensamento estratégico surge, no nosso conjunto de reflexões, na sequência do pensamento analítico, do pensamento lógico e do pensamento crítico, como um modelo essencial a indagar. Se o pensamento analítico ensina a criança a observar e a decompor a realidade, se o pensamento lógico permite estabelecer relações de causa e consequência e se o pensamento crítico introduz a avaliação, o juízo e a suspensão da adesão imediata, o pensamento estratégico acrescenta algo absolutamente decisivo: a passagem do “compreender” para o “agir com intenção”. Não basta entender o que se passa, nem avaliar as versões possíveis, é necessário decidir o que fazer, porquê, em que ordem e com que critérios de eficácia.
Na vida quotidiana das crianças e das famílias esta transição não se verifica em abstrato, acontece quando um objetivo concreto colide com um obstáculo real e exige uma decisão adequada. O pensamento estratégico emerge, por isso, sempre que há algo que a criança quer alcançar e algo que, de facto, a impede de avançar – melhorar os seus resultados escolares, gerir um conflito recorrente, reduzir a dependência de um ecrã, lidar com a pressão de um grupo, reorganizar os seus hábitos de estudo, atravessar um período emocionalmente difícil, entre tantos outros cenários. Em todos estes casos, a questão não é, em primeiro lugar, uma pergunta identitária (“Quem é que eu sou?”), mas uma pergunta claramente operativa, orientada para o caminho e para a eficácia: “O que é que está a bloquear o meu objetivo e qual é o próximo passo que me permite avançar?”
Pensar estrategicamente não é reagir melhor, é agir de forma orientada.
Não é responder com mais autocontrolo, é responder com um objetivo em mente. Não é fazer “o que parece certo”, é fazer o que nos permite ultrapassar o obstáculo real que está a impedir que o objetivo definido seja atingido.
Do ponto de vista do desenvolvimento cognitivo e emocional, esta competência exige uma integração fina de várias capacidades, tais como a definição clara de metas, a leitura realista do contexto, a distinção entre meios e fins, a antecipação de consequências, a hierarquização de prioridades, a gestão de recursos (tempo, energia, atenção) e a avaliação contínua da eficácia das ações levadas a cabo.
Uma criança que começa a pensar estrategicamente deixa de perguntar apenas “O que é que eu faço agora?” e começa a perguntar, pouco a pouco, “O que é que, nesta situação concreta, me ajuda realmente a avançar e a estar mais próxima de atingir o meu objetivo?”
É aqui que muitos adultos (sem o perceberem) fragilizam a aprendizagem estratégica, ao centrarem a sua intervenção apenas na norma (“Isso não se faz.”), na emoção (“Não fiques assim!”) ou na obediência (“Faz isso, porque te digo!”), conseguindo o efeito imediato de regular o comportamento da criança, mas deixando por realizar o trabalho que lhe constrói critérios internos de decisão e de orientação da ação: que a ensina a identificar o objetivo que persegue, a nomear o obstáculo que a bloqueia e a escolher uma ação eficaz que a fará avançar com propósito. Note-se que esta até pode acatar a regra e cumprir a instrução dada, mas não aprende a decidir por si, porque não interioriza critérios (de prioridade, de consequências, de adequação ao objetivo, de custo e benefício) que lhe permitam escolher quando já não há um adulto a indicar o caminho.
É precisamente por isso que o pensamento estratégico requer uma pedagogia orientada para a definição de objetivos e para a identificação dos obstáculos que os bloqueiam, e não apenas para a alteração de comportamentos.
Quando um filho está em conflito com os colegas, a questão estratégica não é apenas “quem tem razão”, mas qual é o objetivo (manter relações funcionais? proteger-se? resolver o conflito?) e qual é o obstáculo específico que o impede de avançar (impulsividade? comunicação inadequada? medo de perder estatuto?).
Quando um filho não estuda, a questão não é apenas “falta de vontade”, mas o que é que ele quer alcançar (transitar de ano? sentir-se capaz?) e o que é que está a bloquear esse avanço (falta de método de estudo? ansiedade? desorganização?).
Quando um filho cede constantemente à pressão do grupo, a questão não é apenas “influência”, mas que objetivo está em jogo (pertença? reconhecimento? segurança?) e que obstáculo precisa de ser ultrapassado para que esse objetivo não seja “pago” com a perda de autonomia (medo de rejeição? necessidade de aprovação? insegurança? dificuldade em dizer “não”?)
É precisamente nestes momentos que um pai ou uma mãe pode fazer a diferença, não impondo uma resposta, mas proporcionando um conjunto de perguntas orientadoras, que ajudem o seu filho a clarificar o pensamento e a ação, tais como:
– “Se eu te pedir que resumas o teu objetivo numa única frase, simples e clara, o que é que dirias?”
– “O que é que queres mesmo que fique resolvido e como é que vais entender que conseguiste atingir o teu objetivo?”
– “O que é que, neste momento, está realmente a bloquear a conquista do teu objetivo: alguém, alguma coisa na situação, ou um hábito/medo teu?”
– “Que escolhas tens, de facto, à tua frente, mesmo que nenhuma seja perfeita?”
– “Qual dessas escolhas te aproxima mais do teu objetivo sem estragar o que é importante (a relação, a tua calma, a tua confiança, …)?”
– “Se escolheres esse caminho, qual é a consequência que estás disposto a aceitar?”
– “Qual é a ação mais pequena que podes fazer já, que não dependa dos outros e que te dê um avanço real?”
– “Que sinal concreto vais observar (comportamento, nota, episódio, frequência), e quando, para perceberes se essa ação está a resultar?”
– “Quando perceberes que avançaste, o que é que gostavas de fazer connosco, em família, para celebrar mais esse passo?”
– “Se esta tentativa não resultar, o que é que ajustas a seguir, sem desistires do objetivo definido?”
Educar estrategicamente é, portanto, ensinar a criança a relacionar objetivos com obstáculos concretos e obstáculos com decisões eficazes. É mostrar-lhe que nem todos os problemas se resolvem do mesmo modo, que nem todas as ações servem todos os objetivos e que escolher bem implica, muitas vezes, abdicar de algo que parece mais simples, mais rápido ou mais confortável. A estratégia nasce também na capacidade de aceitar uma renúncia imediata para proteger um resultado mais relevante!
Em contexto familiar, esta aprendizagem não se faz com esquemas complexos nem com discursos técnicos e pouco eficazes, mas sim com um gesto simples e repetido com consistência: transformar cada dificuldade num exercício de orientação.
Sempre que surge um impasse, em vez de perguntar ao seu filho apenas “O que é que aconteceu?” ou “Quem é que fez o quê?”, o adulto pode ajudar a criança a organizar o pensamento em torno de três eixos fundamentais: objetivo, obstáculo, ação. O essencial não é a resposta “certa”, mas o treino deste processo.
Com o tempo, a criança começa a interiorizar esta lógica. Aprende que pensar estrategicamente não é pensar mais: é pensar melhor para avançar – orientar o pensamento para um objetivo, reconhecer o obstáculo que o bloqueia e escolher, em sequência, a decisão que produz um avanço efetivo. Aprende que não precisa de resolver tudo de uma vez, mas de identificar o próximo obstáculo relevante, para que possa ultrapassar mais esse degrau. Aprende que uma boa decisão não é a que elimina todas as dificuldades, mas a que remove o bloqueio principal e permite avançar mais um passo. E aprende, sobretudo, que errar faz parte do processo estratégico: erra-se, avalia-se, ajusta-se, continua-se!
Num tempo dominado pela urgência, pela reação emocional e pela tentativa de “apagar fogos”, o pensamento estratégico devolve profundidade e eficácia à ação pedagógica. Ensinar uma criança a pensar estrategicamente é ensiná-la a ultrapassar os obstáculos que se interpõem entre ela e os seus objetivos, a agir com intenção e a compreender que um objetivo não se atinge “por acaso”, mas através de decisões intencionais, tomadas no momento adequado e numa sequência coerente, que se vão avaliando e ajustando ao longo do percurso, até produzirem, de facto, resultados concretos e verificáveis.
Talvez por isso esta competência seja tão decisiva para o futuro. Não porque garanta um sucesso automático, mas porque oferece algo muito mais robusto: capacidade de orientação em contextos complexos.
Uma criança que pensa estrategicamente não é aquela que nunca enfrenta problemas, mas sim a que, perante um problema, sabe perguntar a si própria: “O que é que quero alcançar, o que é que me está a impedir e o que posso fazer, agora, para atingir o meu objetivo?”
E esse modo de pensar – silencioso, exigente e profundamente humano – é uma das heranças mais sólidas que a família pode deixar aos seus filhos. Não como uma receita que promete um resultado específico, nem como uma promessa que dispensa percorrer um caminho, mas como um instrumento interior de orientação, capaz de os ajudar a agir, decidir e persistir, com lucidez e responsabilidade, quando o mundo deixa de oferecer facilidades e certezas!
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Créditos da imagem: Phil Hearing (Unsplash)






