Para crianças e jovens: O pensamento mais importante para o teu futuro é este!

(Texto diretamente dirigido a crianças e jovens)
Se leste todas as publicações anteriores, já conheces um caminho que fomos trilhando juntos, para pensares melhor no teu dia a dia, e que passa por observar melhor (pensamento analítico), associar causas e efeitos (pensamento lógico), avaliar antes de acreditar (pensamento crítico) e orientar a tua ação com um objetivo claro (pensamento estratégico).
Hoje vamos falar de um tipo de pensamento, a juntar aos anteriores, que te ajuda quando ficas preso a uma única resposta (ou até “bloqueias”) e que te mostra que existe, quase sempre, mais do que um caminho a seguir: o pensamento criativo!
E atenção, a criatividade não é um “extra” para quem gosta de desenhar, é uma competência para toda a vida, que te ajuda a não ficares prisioneiro da primeira resposta, sobretudo quando essa primeira resposta é: “Não consigo.”
Antes de mais, vamos desmontar alguns mitos sobre a criatividade, que parecem verdade, mas são verdadeiras armadilhas. Atenção!
MITO 1 – “A criatividade é só para as artes.”
Não é verdade. A criatividade também aparece fora do desenho, da música ou do teatro. Surge sempre que tens de resolver ou melhorar alguma coisa – quando inventas uma forma mais eficaz de estudar, quando encontras uma maneira diferente de fazer as pazes com alguém, quando procuras outra estratégia num jogo, ou quando tentas perceber melhor o que aconteceu para não tirares conclusões precipitadas.
A criatividade está na tua capacidade de imaginar alternativas e de escolher a que faz mais sentido!
MITO 2 – “A criatividade é uma “faísca”: ou tens, ou não tens.”
Nem pensar! Há crianças que parecem ter mais facilidade em ser criativas, é verdade, como há crianças que também correm mais depressa ou que aprendem uma música mais rápido. Mas isso não quer dizer que as outras não tenham essa competência. Quer apenas dizer que umas já a treinaram mais, ou tiveram mais oportunidades para a experimentar.
A criatividade aumenta com o treino, porque é uma maneira de pensar – aprender a fazer perguntas, imaginar mais do que uma hipótese, testar, ajustar e tentar outra vez. E quanto mais a praticas, mais rápido o teu cérebro aprende a não ficar preso à primeira solução.
Por isso, em vez de dizeres “eu não sou criativo”, começa a dizer assim: “ainda estou a treinar.” E isso altera tudo. Porque criatividade não é um dom que se tem ou não se tem, mas sim uma capacidade que se constrói, passo a passo, dia a dia!
MITO 3 – “Ser criativo é dizer coisas ‘malucas’.”
Não! Dizer algo muito estranho pode, às vezes, parecer “criativo”, mas muitas vezes é apenas uma forma de chamar a atenção e não resolve nada.
Ser criativo é diferente. É conseguir pensar numa alternativa nova que faça sentido para a situação e que melhore o que está a acontecer. Uma ideia pode ser muito diferente e, mesmo assim, não servir para nada; por isso, a criatividade não se mede pelo quanto a ideia surpreende, mas pelo facto de abrir um caminho que resulta e melhora a situação.
Guarda esta ideia: criatividade não é algo estranho, mas si uma alternativa com sentido.
MITO 4 – “Para ser criativo, não pode haver regras.”
Pelo contrário: as regras ajudam, porque dão-te um “campo mais seguro” onde podes jogar. Sem nenhuma regra, a cabeça perde-se, não sabe por onde começar e acaba por ficar bloqueada.
O que estraga a criatividade não são os limites claros, tais como “tens 10 minutos”, “usa só estes materiais”, “não podes copiar”, “tem de caber numa folha”. Esses limites, muitas vezes, fazem até nascer ideias melhores, porque te obrigam a pensar de forma mais clara e eficaz.
O que asfixia a criatividade é outra coisa – o medo de falhar, a pressa de responder, a vergonha de tentar e a sensação de que tens de acertar logo à primeira. Quando sentes isso, a tua cabeça bloqueia e deixas de experimentar. E sem experiência, não há criatividade!
MITO 5 – “Criatividade é fazer o que me apetece.”
Não é verdade. Fazer logo o que te vem à cabeça pode até parecer criatividade, mas muitas vezes é apenas um impulso, uma vontade rápida, que aparece primeiro e que nos empurra para agir, sem pensar bem. A criatividade, pelo contrário, requer um pequeno intervalo, aquele tempo em que tu paras, imaginas outras possibilidades e só depois escolhes a melhor forma de agir.
Esse intervalo pode ser curto, mas raramente é imediato. Às vezes bastam alguns instantes, outras vezes precisas de meio minuto, de dois ou três minutos, ou até de te afastares um pouco, respirares fundo e voltares com mais calma, mais tarde. O que importa é teres tempo para imaginar pelo menos mais duas a três alternativas, em vez de ficares preso à primeira ideia que te surge no imediato em que decorre a situação ou o problema.
Por isso, ser criativo não é “fazer o que apetece”. Ser criativo é pensar antes de agir, para escolheres uma solução que faça sentido para a situação e que te ajude a avançar. Quando consegues parar, imaginar possibilidades e decidir com clareza, estás a usar o pensamento criativo da forma certa, não como um impulso, mas como uma forma inteligente de escolher e de prosseguir!
Quando a tua cabeça bloqueia, tudo parece mais difícil
Talvez já te tenha acontecido esta situação: tens um teste difícil, um conflito com um colega, ou um dia em que tudo parece correr mal. E, de repente, surge-te um dos seguintes pensamentos:
“Não sei.”
“Não consigo.”
“Isto é impossível.”
Às vezes, essa frase não quer dizer “não sei mesmo”. Quer dizer que o teu pensamento ficou afunilado. Como se o teu cérebro, uma autoestrada, tivesse ficado apenas com uma única faixa de estrada, e, nessa faixa, só há duas opções: ou respondes de mau modo / fazes uma asneira, ou desistes e não fazes nada.
É aqui que o pensamento criativo te ajuda e te protege. Não porque te dá “a resposta certa”, mas porque te possibilita algo que é decisivo – margem de manobra! Quando tens alternativas, já não estás encostado à parede. E, quando deixas de estar encostado à parede, consegues dominar melhor a angústia, o medo, a vergonha ou a pressa.
Criatividade não é só imaginar. É imaginar e pôr a funcionar!
Uma ideia criativa, para ser mesmo criativa (e não apenas “diferente”), tem de ter duas qualidades simultâneas – a de sair do habitual e a de servir para alguma coisa concreta. Isto é muito importante porque, às vezes, quando alguém fala de criatividade, parece que está a falar de “imaginar coisas bonitas” ou “inventar coisas malucas” e isso pode confundir-te.
Sim, imaginar é importante. Mas imaginar sem ligação direta ao problema é só imaginação à solta. Pode ser divertido, mas não te ajuda quando estás a tentar resolver algo a sério.
Quando tens um problema, a criatividade serve para criares alternativas que te ajudam a desbloquear e a avançar na direção da solução mais correta. Alternativas que, mesmo que ainda não sejam perfeitas, já te permitem sair do bloqueio inicial. E há aqui uma diferença grande entre “uma ideia que parece engraçada” e “uma ideia que resulta”: a que que resulta é aquela que para além de resolver o problema, não deve criar outro logo a seguir.
Por exemplo, se tens um conflito com um colega e ficas irritado, pode parecer “criativo” escreveres uma mensagem a gozar com ele e colocá-la num grupo, para os outros rirem. No entanto, isso não resolve o que aconteceu, apenas aumenta o conflito e transforma um problema pequeno numa discussão bem maior. Se estás bloqueado com um trabalho de casa, pode parecer “criativo” inventar uma desculpa – “esqueci-me”, “não percebi”, “não tenho material” – para evitares a tarefa. No entanto, isso não te ajuda, apenas adia o problema. Ou, num jogo, pode parecer “criativo” mudar as regras a meio, para ganhar. Pode dar uma sensação de “esperteza” durante uns minutos, mas, logo de seguida, o jogo perde sentido e alguém acaba por ficar zangado, pois colocaste em causa os critérios de justiça, destinados a todo o grupo.
O pensamento criativo que interessa é outro! É o que te ajuda a encontrar uma alternativa que melhora a situação, em vez de a tornar mais difícil. Não é a ideia que até pode impressionar no momento, mas sim a que, na prática, resolve o problema. Por isso, quando te surgir uma solução na cabeça, não a aceites logo como se fosse a única. Pára um instante e faz duas perguntas curtas, mas muito importantes: “Isto resolve mesmo a situação?” e “E depois disto, o que é que acontece?”
Quando aprendes a colocar estas duas questões a ti próprio, percebes que criatividade não é fazer “qualquer coisa diferente”. É pensar em várias soluções possíveis, escolher a mais adequada e testá-la, para que o problema diminua e tu consigas seguir em frente.
O ritmo da criatividade – dois momentos que tens (MESMO!) de aprender a separar.
O pensamento criativo tem um ritmo muito próprio. E, atenção, que quase que ninguém o explica com a devida clareza!
Imagina que a tua mente é como os teus pulmões, precisa de respirar (inspirar e expirar). Para criares uma solução para um problema, e que funcione, também precisas de dois movimentos diferentes. Se os tentares fazer ao mesmo tempo, a criatividade morre.
Primeiro momento – a DIVERGÊNCIA
É o tempo de fazer uma lista de ideias, antes de decidir! Nesta fase, a regra de ouro é a de não criticar nada.
Imagina que estás a abrir todas as janelas de uma casa. O objetivo é gerar o maior número possível de opções, sem medo. Sair do “só há uma maneira”. Fazer listas, desenhar esquemas, dizer ideias que até podem parecer estranhas – vale tudo! Ok? Porque, nesta fase, o que procuras é a fluência, ou seja, ter muitas ideias para depois poderes escolher a(s) melhor(es).
Se alguém (ou tu próprio!) disser logo “isso não dá”, a janela fecha-se. E, quando a janela se fecha, a tua inteligência deixa de procurar nesse lugar. Por isso, na divergência, o segredo é, sempre – primeiro imagina, depois logo se vê!
Segundo momento – a CONVERGÊNCIA
Depois de teres o “leque aberto” com muitas ideias, chega o momento de escolheres as melhores, com todo o cuidado. Mas atenção, escolher não é o mesmo que dizer apenas “gosto mais desta”.
A convergência exige que cries, primeiro, uma “lente de precisão”. Essa lente é feita de critérios, que são como as regras que te ajudam a decidir com inteligência e eficácia.
Por isso, antes de escolheres, tens de olhar para a tua lista de ideias e passar cada uma delas por vários filtros (critérios de seleção) adaptados ao teu problema real (segue um exemplo):
Impacto – Esta ideia resolve mesmo o que está a acontecer? Por exemplo, se o problema é um conflito com um amigo, esta ideia vai ajudar-te a fazer as pazes ou vai piorar a situação?
Tempo – Temos tempo para pôr esta ideia a funcionar agora? Se precisas de uma solução para o recreio, não podes escolher algo que demora horas a preparar.
Custos – Temos o que é preciso? Se a tua ideia para um trabalho de grupo exige materiais que não tens em casa, talvez precises de a ajustar.
Interesse – Esta solução vai funcionar para quem está envolvido? É uma ideia que os teus amigos ou a tua família vão querer aceitar e experimentar contigo?
Só depois de aplicares estes critérios é que vais selecionar as ideias que “passam no teste”.
A convergência transforma uma “ideia solta” numa solução real e responsável. É neste passo que aplicas a tua energia para filtrar e aperfeiçoar o que imaginaste.
Ao definires critérios de seleção, deixas de escolher por impulso e passas a escolher com intencionalidade e propósito.
Por isso, é que segredo dos grandes inventores é este:
Primeiro imaginam muitas ideias (Divergir); depois, com critérios de seleção claros, escolhem as melhores e afinam-nas até funcionarem (Convergir).”
Quando aprendes a definir critérios, ganhas o poder de construir a tua própria resposta, com a segurança de quem sabe exatamente por que razão escolheu aquele caminho!
Agora, um exemplo simples
Situação: Tens um teste e não consegues começar a estudar.
A tua primeira resposta pode ser: “Não consigo. Não tenho cabeça para isto.”
Agora, vamos usar a criatividade, com os dois tempos bem separados.
DIVERGÊNCIA (Gerar alternativas)
Nesta fase, não penses se a ideia é boa ou má. Faz apenas uma lista:
. Estudar apenas 20 minutos e parar.
. Começar pelo exercício mais fácil, só para ganhar ritmo.
. Fazer flashcards, em postits, só para “desbloquear”.
. Estudar com um amigo durante 15 minutos (por videochamada).
. Trocar o espaço de estudo – sair da secretária e ir para a mesa da sala, para a biblioteca ou para o jardim.
. Fazer 2 minutos de respiração profunda antes de abrir o livro.
CONVERGÊNCIA (Escolher, com base em critérios)
Agora, vais usar a tua “lente de precisão” para escolher a melhor ideia da lista:
Impacto: Qual destas ideias me ajuda, realmente, a dar o primeiro passo, agora?
Tempo: Tenho tempo para fazer isto ou o teste é já daqui a pouco?
Custos: Tenho o que preciso? (Por exemplo: postits para os flashcards)
Interesse: Qual destas opções me deixa menos stressado e com mais vontade de começar?
Depois de pensares nisto, talvez decidas: “Vou começar pelo mais fácil, estudar sozinho durante 20 minutos, na mesa da sala.”
Repara: aqui, a criatividade não é “arte”, é aplicação ao teu dia a dia! É a ferramenta que te permite sair de um bloqueio e começar a caminhar, com uma solução que tu próprio construíste! Passo a passo.
A casa e a escola: onde a criatividade cresce (ou se oculta)
O pensamento criativo não desaparece porque alguém “não tem talento”. Muitas vezes, ele deixa de aparecer porque começas a sentir que não é seguro tentar. E isto pode acontecer por coisas muito pequenas, mas que se repetem – um comentário que te faz sentir vergonha, um suspiro de impaciência de um adulto, um olhar que parece dizer “isso não faz sentido” ou um “riso sarcástico” quando apresentas uma ideia diferente.
Quando isto acontece muitas vezes, a tua mente cria uma regra: “Mais vale não arriscar.” A partir daí, começas a escolher sempre o caminho mais fácil e mais seguro, mesmo que não seja o melhor para resolver o problema.
Quando a tua família ou a escola te reforçam a mensagem de que só vale a pena falar quando já tens a “resposta certa”, acabas por aprender uma outra regra: “Mais vale estar calado do que falhar.”
É assim que nasce a autocensura, que é como um filtro invisível que começa a cortar as tuas ideias antes de elas nascerem. É o teu cérebro a tentar proteger-te de críticas, de vergonhas ou de comparações. Isto acontece, por exemplo, quando tentas resolver um desafio e alguém te diz logo: “Isso é impossível.” Ou quando fazes uma pergunta e ouves: “Isso agora não interessa.” Ou quando alguém se apressa a corrigir-te antes de perceber o que estavas a tentar dizer ou fazer. Não é preciso um grito para bloquear o pensamento, às vezes basta a velocidade de um comentário.
Mas também é verdade o contrário – a tua família e a escola podem ser o melhor sítio do mundo para o teu pensamento criativo crescer!
Como? Criando um ambiente onde é seguro dizer: “Ainda não sei, mas vou tentar.” Um lugar onde o erro não é uma humilhação, mas um passo necessário para aprender. Onde as pessoas te perguntam: “Explica-me como é que chegaste a essa ideia”, em vez de dizerem apenas “Isso não dá”. Onde se percebe que há tempo para explorar, antes de ser preciso decidir.
E há uma coisa que tu próprio podes aprender a pedir, de forma simples e muito eficaz. Em vez de solicitares, aos teus pais, uma “solução pronta” para um problema que tens, podes dizer assim: “Podes ajudar-me a pensar em mais duas alternativas, antes de eu escolher?” Isto muda tudo! Porque obriga o adulto a apoiar o teu pensamento, em vez de o substituir. Dá-te o espaço que precisas para seres tu a decidir, com a segurança de quem sabe que pensar diferente e selecionar a ideia mais eficaz para resolver um problema, é um sinal de profunda inteligência e autonomia.
Criatividade também é saber não desistir!
Muitas vezes pensa-se que a criatividade é apenas uma questão de ideias, como se fosse um jogo de raciocínio que acontece todo “na cabeça”, sem interferências. Mas a verdade é outra! A criatividade depende muito da forma como lidas com aquilo que sentes, porque criar implica sempre um pequeno risco e o risco traz emoções reais, tais como o medo de falhar, o receio de parecer ridículo, a vergonha de dizer uma ideia que ninguém entende ou a ansiedade de tentar e não resultar.
É por isso que, quando estás a tentar encontrar uma solução diferente, existe uma parte de ti que prefere o caminho mais seguro e mais conhecido. Essa parte quer recuar, quer desistir, quer dizer “não sou capaz” antes de tentares. E é aqui que te realço uma questão essencial – criatividade não é estar sempre “inspirado”, é ter força para continuar a procurar mesmo quando a ideia certa ainda não surgiu!
Muitas vezes, o que te bloqueia não é falta de imaginação. É uma emoção que te perturba, a frustração porque não “está a sair nada”, a impaciência porque querias que fosse rápido, ou a vergonha porque tens medo de errar. Mas a solução não é fingires que essa emoção não existe, mas sim aprenderes a reconhecer o que estás a sentir e a não deixares que essa emoção te bloqueie. Às vezes basta uma pausa curta, duas respirações mais lentas, um minuto de silêncio, para o teu pensamento estabilizar e conseguires tentar outra vez, com mais energia e foco.
Quando treinas, com regularidade, o pensamento criativo, aprendes, na pele, uma ideia que te vai acompanhar durante toda a vida: “Ainda não consegui; mas, se tiver perseverança para procurar e coragem para tentar outra vez, vou encontrar uma saída, nem que seja um pequeno passo que me ajude a estar mãos perto da resolução deste problema”. É isso que te dá força quando as coisas não saem logo à primeira!
A esta capacidade chamamos robustez emocional. É a faculdade que te permite lidar com o erro sem que ele comprometa a tua confiança ou a tua vontade de continuar. No fundo, trata-se de compreender que falhar não é um sinal de incapacidade, mas sim um elemento natural do processo de descoberta. Quem cria raramente atinge a solução à primeira tentativa! Quem cria ensaia, ajusta, volta atrás e aperfeiçoa. É neste exercício intencional e consciente que a tua inteligência se torna verdadeiramente autónoma e preparada para intervir sobre a realidade, independentemente da complexidade dos desafios que a vida te possa apresentar.
A criatividade como a inteligência das ligações
Uma das dimensões mais elevadas da criatividade é a capacidade de estabelecer relações entre domínios do conhecimento que, à primeira vista, parecem distantes ou desconexos.
Frequentemente, as situações do quotidiano não se apresentam separadas por disciplinas; a realidade é um tecido interligado onde os problemas exigem mentes capazes de integrar perspetivas diversas.
Na escola, embora estudes Português, Matemática ou Ciências em tempos distintos, a tua inteligência funciona melhor quando aprendes a “conectar mundos”.
Esta transversalidade permite-te, por exemplo, utilizar um esquema visual ou um desenho para compreender um enunciado complexo de Matemática, ou recorrer a uma analogia histórica – como a organização de uma cidade-estado na Grécia Antiga – para entender a importância da participação cidadã e do debate ético em Cidadania e Desenvolvimento. Quando encontras um padrão rítmico numa peça musical em Educação Musical e percebes que essa mesma estrutura de repetição te ajuda a organizar o teu tempo de estudo ou a treinar uma jogada no desporto, estás a exercer a inteligência das ligações.
Estas pontes tornam-se ainda mais poderosas à medida que os teus conhecimentos se aprofundam.
Considera estes exemplos concretos:
Ciências Naturais e Geografia: Quando estudas a tectónica de placas e percebes como o movimento das camadas da Terra explica a formação das paisagens e a localização das populações que analisas em Geografia.
História e Português: Quando lês um texto literário de um autor clássico e utilizas os teus conhecimentos de História para compreenderes as críticas sociais e o contexto da época em que ele escreveu.
Físico-Química e Educação Visual: Quando aplicas as leis da ótica e da luz para compreenderes como as cores se misturam e como as sombras criam profundidade e perspetiva nos teus desenhos.
Matemática e TIC: Quando utilizas o raciocínio lógico e as funções matemáticas para construíres um algoritmo ou um código de programação que resolva um desafio digital.
Educação Física e Ciências: Quando compreendes como o sistema circulatório e a respiração funcionam em esforço, permitindo-te ajustar o teu ritmo e a tua estratégia durante um jogo de equipa ou uma prova de atletismo.
A criatividade, neste sentido, é a faculdade que impede o conhecimento de se tornar um conjunto de “gavetas isoladas”. Quanto mais aprendes a estabelecer estas pontes, mais profundamente compreendes o mundo que te rodeia. Esta capacidade alimenta todos os outros modos de pensar: concede mais precisão ao pensamento analítico, oferece mais clareza ao pensamento lógico e dá mais substância ao pensamento crítico.
No fundo, uma criança que aprende a conectar saberes distintos nunca fica prisioneira de uma única solução para um problema, pois descobre que a inteligência é, acima de tudo, a arte de encontrar relações onde outros apenas veem separações.
Para terminar (e isto é mesmo importante!)
O pensamento criativo não é um luxo ou um “talento especial” reservado apena a alguns. É, em boa verdade, a faculdade que te protege nos momentos de maior incerteza, quando as “respostas prontas” deixam de funcionar.
Esta competência atua como uma espécie de soberania interior, impedindo que sejas empurrado pela velocidade de uma resposta, pelo medo ou pela pressão de seres igual a todos os outros.
Quando a tua mente aprende a criar alternativas, conquistas o espaço necessário para não reagires por impulso, permitindo que a tua inteligência assuma o comando da situação.
O futuro irá apresentar-te desafios que não vêm com um “manual de instruções” nem com uma única solução correta. Nesses momentos, a preparação mais sólida não reside naquilo que decoraste, mas na tua capacidade de construir novos caminhos e de escolher entre eles, com critérios bem definidos. É esta flexibilidade que te confere autonomia intelectual – a liberdade de não ficares dependente de soluções externas e de saberes que, perante um obstáculo, possuis sempre a capacidade de ensaiar outra via de resolução!
Ao treinares esta forma de pensar, ganhas também uma robustez que te impede de colapsar perante o erro. Aprendes a olhar para o erro não como uma “mancha na tua dignidade”, mas como um passo indispensável para a descoberta.
Uma criança criativa não é aquela que tem sempre ideias brilhantes, mas sim aquela que não se deixa paralisar quando a primeira tentativa não funciona. É alguém que sabe recomeçar, testar e decidir, tornando-se, passo a passo, o autor consciente do seu próprio percurso, da sua própria vida.
Memoriza esta ideia: quando a tua inteligência se liberta da obrigação de acertar à primeira, ganhas a coragem necessária para enfrentar o desconhecido! É esta força que te prepara para um mundo em constante mudança, garantindo que, independentemente das circunstâncias, nunca perderás a capacidade de reinventar o teu lugar, resolvendo, dia a dia, com autonomia e eficácia, os problemas vierem a surgir!
Na próxima publicação, passamos à prática: um texto-desafio para treinares, em família, este ritmo essencial – gerar possibilidades com liberdade e escolher com rigor – para que a tua cabeça não fique prisioneira da primeira resposta, sobretudo quando essa resposta te empurra para a desistência.
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Créditos da imagem: Mario Heller (Unsplash)






