Como ensinar uma criança a pensar? Um ponto de partida para os pais

Quando se fala em ensinar uma criança a pensar, a tentação imediata é traduzi-lo em algo operacional – estratégias, perguntas corretas, métodos eficazes e decisões acertadas. No entanto, esse impulso (compreensível num tempo que exige resultados rápidos) corre o risco de nos afastar claramente do essencial.
Pensar não é uma técnica que se aplica quando surge um problema, nem um conjunto de respostas que se transfere de um adulto esclarecido para uma criança em formação. Pensar é uma estrutura interior que se constrói lentamente, mesmo antes de a própria criança saber dar nome aos problemas que um dia terá de enfrentar.
Ensinar a pensar é, antes de mais, aceitar que a educação acontece previamente à resposta final da criança. Constrói-se na forma como esta aprende a observar uma situação, a tolerar a dúvida, a suportar a frustração de ainda não saber, a perceber que escolher implica sempre abdicar de algo e que decidir traz consigo uma responsabilidade acrescida. É nesse território prévio, silencioso, pouco visível e raramente mensurável, que se forma a estrutura sobre a qual todas as aprendizagens posteriores se irão alicerçar.
Num mundo que já não oferece instruções claras, previsíveis e definitivas, educar deixou de poder basear-se apenas na transmissão de conteúdos ou na repetição de fórmulas que funcionaram no passado. A complexidade atual exige algo bastante distinto: crianças capazes de pensar de forma estruturada antes de reagir, de distinguir o essencial do acessório, de compreender as consequências das suas escolhas e de se orientar quando a “resposta certa” não é evidente. Nada disto surge por acaso ou se adquire por osmose. Tudo isto se constrói, passo a passo, dia a dia, num trabalho de grande proximidade.
O problema é que, muitas vezes, educamos como se o ato de pensar fosse um efeito colateral do crescimento, e não um processo que requer todo o cuidado e intencionalidade na ação. Corrigimos comportamentos sem clarificar os critérios da sua avaliação, resolvemos problemas pelos nossos filhos sem lhes permitir, previamente, compreender o processo, protegemo-los da incerteza sem perceber que é precisamente nela que o pensamento ganha uma densidade mais profunda. Ao fazê-lo, oferecemos soluções imediatas, mas adiamos a construção da autonomia das nossas crianças.
Ensinar uma criança a pensar é, antes de mais, aceitar que o erro faz parte do percurso, que a lentidão pode ser formativa e que as dificuldades não devem ser removidas do processo educativo. É acompanhar sem substituir, orientar sem controlar, esclarecer sem encerrar prematuramente os caminhos. É criar condições para que a criança aprenda a “habitar o problema”, em vez de fugir dele. Porque é aí, nesse espaço intermédio entre o estímulo e a resposta, que o pensamento se organiza. [Permitam-me a este propósito, uma curta referência um livro fantástico: “O que fazer com um problema? “, de Kobi Yamada (texto) e Mae Besom (ilustração). Ed. Zero a Oito. Um livro raro, útil da infância à idade adulta].
Pensar não é, por isso, um bloco único e indiferenciado, como se a mente humana operasse sempre com a mesma “ferramenta”. Pensa-se de maneiras diferentes consoante a tarefa em causa, o risco associado, o tempo disponível e o tipo de realidade experienciada.
Há momentos em que a criança necessita de decompor o que vê, separar elementos, identificar padrões e variáveis (pensamento analítico, que confere rigor ao olhar). Há outros em que precisa de relacionar e ligar, entender coerências e consequências, organizar uma sequência de razões (pensamento lógico, que impossibilita que a decisão seja um “salto no escuro”). Noutros momentos, o essencial é questionar, avaliar uma informação, reconhecer fragilidades, resistir ao “efeito de grupo”, distinguir o que parece verdadeiro do que é apenas sedutor (pensamento crítico, que protege a criança do ruído e da manipulação). Mas pensar também é, muitas vezes, ser capaz de imaginar alternativas quando a solução definida parece não ser a mais adequada, ver possibilidades onde outros só veem bloqueios, combinar ideias, testar hipóteses (pensamento criativo, que aumenta o campo de possibilidades, antes da decisão). E, quando a situação exige uma escolha com maturidade acrescida, a criança necessita ainda de antecipar, de projetar cenários, de prever efeitos colaterais, de compreender o “preço” de cada opção tomada, pensar a longo prazo (pensamento prospetivo, que torna a decisão menos impulsiva e mais consciente). Por fim, nenhuma destas capacidades é suficiente se não existir uma pergunta essencial: “O que é que isto faz aos outros e ao mundo que, com eles, partilho?” (pensamento ético, que propõe densidade humana à escolha, transformando o poder de decidir em responsabilidade).
Misturar tudo isto numa ideia vaga de “pensar bem” empobrece o processo educativo, uma vez que cada modo de pensar se desenvolve com práticas específicas, em tempos distintos, e com formas de acompanhamento diferentes! [Nota: cada um destes modos de pensar será, nos próximos textos, trabalhado de forma aplicada, com exercícios concretos pensados para apoiar pais no desenvolvimento destas competências nos seus filhos].
É por isso que ensinar uma criança a pensar não pode ser reduzido a um simples slogan inspirador. Trata-se de um trabalho quotidiano, exigente e profundamente humano, que se faz nas pequenas decisões diárias, nas conversas imperfeitas, nos conflitos que não se resolvem de imediato e nos silêncios em que o adulto resiste à tentação de responder por antecipação. É nesse trabalho invisível que se constrói uma arquitetura interior suficientemente sólida para sustentar a criança quando o mundo lhe pedir mais do que apenas respostas certas e imediatas.
Nos textos que se seguem, iremos aprofundar os diferentes modos de pensar que uma criança necessita de desenvolver para se orientar neste mundo tão complexo. Não como categorias abstratas, mas como competências vivas, que se constroem na experiência, na relação e no tempo. Porque educar, no seu sentido mais exigente, é precisamente fazer com que a criança aprenda a parar, a pensar e a decidir, em vez de reagir – mesmo nos momentos de maior pressão!
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Créditos da imagem: Annie Spratt (Unsplash)






