Para crianças e jovens: Não decidas já, observa primeiro!

[Nota prévia à publicação]
Depois de muitos pedidos de pais e educadores nas minhas redes sociais Facebook e Instagram, esta série de reflexões passará agora a seguir, de forma regular, um percurso de três momentos sequenciais: um texto dirigido a pais e educadores, um texto (com o mesmo propósito) escrito diretamente para crianças e jovens (para os pais partilharem com os mais novos), e, por fim, um exercício/desafio em família para treinar, no quotidiano, as áreas de competência envolvidas nessas reflexões.
O primeiro passo – o texto dirigido a pais e educadores – cumpre a função essencial de clarificar, com rigor, conceitos e competências a desenvolver na criança ou no jovem, justificando por que razão são relevantes, como se desenvolvem e que erros quotidianos tendem a surgir.
O segundo passo – o texto para as crianças e jovens – procura falar-lhes, sem intermediários, sobre a mesma temática do texto dirigido aos adultos, com uma linguagem adequada à sua faixa etária e exemplos próximos do seu quotidiano (família, escola, amigos, …).
O terceiro passo – o desafio – permitirá passar da reflexão à prática, com a estrutura a que já habituei os leitores ao longo do tempo: uma proposta de ação clara, com o passo a passo, materiais e metodologias envolvidos, e um sentido pedagógico bem explícito.
Acredito que nesta cadência intencional e regular – dirigida primeiro aos adultos, depois às crianças e jovens e, por fim, à família em conjunto – se criarão melhores condições para transformações reais, consistentes e duradouras, tanto nos pais como nos seus filhos!
Para crianças e jovens: Não decidas já, observa primeiro!
O poder do pensamento analítico
(Texto diretamente dirigido a crianças e jovens)
Já reparaste que, muitas vezes, decidimos coisas muito depressa e depois percebemos que afinal não “era bem assim”?
Isso acontece porque, antes de decidir, precisamos de aprender a observar.
Observar não é apenas olhar.
Observar é parar um pouco, prestar atenção ao que aconteceu mesmo e tentar perceber melhor a situação antes de reagir.
Imagina que chegas a casa zangado, porque sentiste que a professora foi injusta contigo. Ou porque achas que ninguém te quis deixar jogar no recreio. Ou porque tens a certeza de que alguém “fez de propósito”. O que sentimos nesses momentos é verdadeiro – a revolta, a tristeza ou a frustração existem mesmo. Mas isso não quer dizer que já saibamos tudo o que aconteceu.
É aqui que entra o pensamento analítico.
Pensar de forma analítica é aprender a separar as coisas:
– o que aconteceu de verdade;
– o que pensaste sobre isso;
– o que sentiste naquele momento;
– e o que talvez estejas a supor, sem ter a certeza.
Quando não fazemos esta separação, tudo fica misturado dentro da nossa cabeça: o que vimos, o que sentimos, o que imaginámos. E, quando tudo está misturado, as decisões costumam ser apressadas, e muitas vezes injustas, até connosco próprios.
Aprender pensamento analítico não significa deixar de sentir. Pelo contrário. Significa não deixar que o sentimento tome, sozinho, uma decisão.
Por exemplo:
Se pensares “a professora não gosta de mim”, pode ser importante perguntar:
– O que aconteceu exatamente na aula?
– O que é que ela disse?
– Disse isso só a mim ou a mais alguém?
– O que senti nesse momento?
– Há outra explicação possível?
Ou, quando dizes “ninguém me deixou jogar”:
– Quem estava lá?
– O que foi dito?
– Alguém explicou alguma coisa?
– O que é que eu pensei logo a seguir?
Estas perguntas não servem para te culpar nem para te dizer que estás errado. Servem para te ajudar a ver melhor.
Quando aprendes a observar assim, ganhas algo muito importante: tempo para pensar!
Esse tempo ajuda-te a acalmar, a compreender melhor o que se passou e a escolher com mais cuidado o que vais fazer a seguir.
Uma criança ou um jovem que aprende a observar antes de decidir começa a perceber que nem tudo é tão simples como parece à primeira vista. Aprende que as situações têm partes, pessoas, momentos e explicações diferentes. E isso torna-os mais seguros, mais justos e mais confiantes.
Pensar melhor não é responder mais depressa.
Pensar melhor é parar um pouco, observar e só depois decidir.
E este é apenas o primeiro passo.
Depois de aprender a observar e a separar as coisas, vais aprender a ligá-las, a perceber causas e consequências, usando outra modalidade de pensamento – o pensamento lógico – e é sobre isso que vamos falar dentro de alguns dias.
Porque aprender a pensar é um caminho. E esse caminho começa sempre por aprender a olhar com atenção.
Até breve!
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Créditos da imagem: Andriiyko Podilnyk (Unsplash)






